O rio que não para: a trajetória de Fernando Dagata na cultura



De ascendência paraguaia, Fernando de Castro Além carrega no próprio nome uma pequena ficção herdada: o codinome Dagata, referência a um personagem da minissérie de TV Bandidos da Falange, sucesso durante sua adolescência nos anos 80. Mas é na vida real, entre memórias, acordes e bastante insistência, que se desenvolve a sua trajetória na arte.
A música esteve presente desde cedo. As primeiras lembranças vêm carregadas de afeto: o pai entoando polcas paraguaias, a casa tomada por discos que iam de Los Panchos à jovem guarda. Era um ambiente onde o som circulava com naturalidade, ainda que não houvesse, por parte da família, o incentivo direto para que aquele menino se tornasse artista.
Pelo contrário. A expectativa era outra. A mãe desejava um futuro mais estável, de prestígio… medicina, talvez. Fernando seguiu, ao menos em parte, esse caminho: estudou, formou-se em História e construiu uma sólida trajetória como professor da rede estadual do Estado de Mato Grosso do Sul. Mas a música, como ele mesmo diz, nunca foi exatamente uma escolha: “Não é você que escolhe a arte, é ela quem te escolhe”, afirma.
O despertar no III Plano e os primeiros acordes

Foi na adolescência, no bairro BNH III Plano, que o rock entrou de vez na sua vida. Início dos anos 80, a molecada se reunia para ouvir vinis, acompanhar o que explodia nas rádios e na televisão, absorvendo aquele novo som que atravessava o Brasil.
Dali nasceu o desejo de fazer música. Autodidata, Fernando aprendeu sozinho seus primeiros acordes, de forma rudimentar, guiado mais pela vontade do que pela técnica. O repertório de influências foi se expandindo: do rock nacional, com nomes como Legião Urbana, Barão Vermelho e Engenheiros do Hawaii, até referências internacionais como Nirvana, Pearl Jam, The Doors e The Beatles.
Essa mistura, somada à memória musical herdada do pai, foi moldando um artista que ainda nem sabia exatamente o que viria a ser.
Apollo 11, Alquimia e a vida na noite
Aos 15 anos, em 1988, fundou sua primeira banda: Apollo 11. A estreia veio logo, na inauguração da Praça do Cinquentenário, um primeiro palco que, de alguma forma, já anunciava o que viria depois.

Anos mais tarde, aos 25, Fernando daria um passo decisivo: com a abertura do Alquimia Bar, casa noturna que se tornaria um marco na cena cultural de Dourados, passou a encarar a música como algo de fato profissional. Ali, música e convivência se misturavam, tornando-se palco, ponto de encontro e laboratório musical ao mesmo tempo.
É com certo humor que ele resume essa fase como a de um “rockstar douradense”, mas o riso não apaga os desafios. “Quem faz rock é por amor, principalmente no início. É ingenuidade pensar que vai ganhar dinheiro com o rock, sobretudo na fronteira com o Paraguai, no Brasil profundo.”
A fala revela o que atravessa boa parte dos artistas fora dos grandes centros: a necessidade de sustentar a arte na base da persistência.

Ao longo dos anos, a trajetória de Dagata se entrelaça com a própria história da música na região. Entre os momentos marcantes, lembra com carinho do Forrock, um festival de rock autoral em Rio Verde, realizado em 2001, onde conquistou o segundo lugar com uma composição própria, Ramão Ramirez, um reconhecimento que, mais do que prêmio, deu na época parte do gás necessário para reafirmar o caminho a ser seguido.
Mesmo se não houvesse o reconhecimento da época, desistir nunca foi uma opção para Fernando. A música, diz ele, é o que o faz se sentir completo. É o que sempre sustentou sua sensação de felicidade e realização.
Encontros que ficam

A estrada também trouxe encontros que permanecem como pequenas relíquias.
Um deles, especialmente simbólico, foi com Cássia Eller. Em passagem por Dourados, durante as Temporadas Populares, também em 2001, a cantora demonstrou uma generosidade rara: atendeu fãs, estendeu a noite e acabou dividindo o palco do Alquimia com músicos locais. Um after improvisado que, na memória de Dagata, permanece como um dos mais especiais.
Nem todos os encontros foram tão tranquilos. Houve também episódios caóticos, como a história de um outro after na noite douradense envolvendo o Barão Vermelho que terminou na delegacia (sem maiores consequências, felizmente). Situações que hoje entram no repertório de histórias que só a vida na noite é capaz de produzir.
No meio disso tudo, ainda cruzaram seu caminho nomes como O Rappa e Zélia Duncan, encontros esses que nos ajudam a ter noção da dimensão de sua trajetória.
Festop: a arte como encontro

Se há algo que no discurso de Dagata que podemos afirmar com clareza, é sua visão sobre o papel da cultura.
Com firmeza, acredita que “a arte não é acessório, a arte é essencial para o dia a dia.” Para ele, cultura é o que define um povo. Está na música, na comida, nas artes visuais, no teatro. É o que nos permite reconhecer quem somos.
Essa visão não fica apenas no discurso. Hoje, além de seguir produzindo seus próprios trabalhos (já são três discos lançados), Fernando se dedica à produção cultural de forma concreta e pública: o Festop - Festival de Todos os Povos.

O projeto, realizado em Dourados e com duas edições de sucesso de público (2023 e 2024), nasceu com um objetivo claro: criar um espaço onde diferentes expressões artísticas possam coexistir. “Eu aprendo diariamente com o Festop. Trabalho literalmente todos os dias preparando a próxima edição”, explica.
Mais do que um evento, o festival se apresenta como tentativa de costurar a cena local, reunir artistas, linguagens e públicos. Um esforço contínuo de fazer a cultura circular e existir.
A responsabilidade de ser espelho para as próximas gerações

É nesse movimento de construir espaços que também nasce um outro tipo de satisfação: ver o crescimento de quem veio depois.
Dagata fala com entusiasmo ao observar o surgimento de novos artistas na cena local. Para ele, mais do que continuidade, existe uma espécie de fluxo, algo que não depende apenas de uma geração, mas da capacidade de manter o caminho aberto.
“É muito gratificante ver essa molecada com vontade de tocar. Claro, eu queria que essa nova geração ouvisse mais rock… mas faz parte. O mundo se transforma e a gente precisa se adaptar. E o cenário tá aí, cheio de gente boa, fazendo música boa. Isso me deixa muito feliz.”
A fala não carrega nostalgia paralisante, mas um reconhecimento de que o tempo está em movimento. O que importa, para ele, é que a música continue acontecendo.

“Quando a gente começa a pensar no próximo Festop, já pensa em quem vai tocar. E aí você vê essas novas gerações chegando e pensa: que legal! É como se a gente tivesse mantido esse caminho aberto e ele continua. É um rio que segue passando, trazendo águas limpas, novas.” Mais do que observador, Dagata é alguém que participa ativamente desse fluxo e que tenta, à sua maneira, garantir que ele não se interrompa.
Se pudesse deixar um conselho, seria simples e direto: “Não para. Segue em frente, com força. Mas sempre pensando em produzir coisa nova, em fazer música, em movimentar as coisas. Tem que ter coragem pra fazer e pra fazer acontecer.”
Aos 53 anos, Fernando Dagata se define como uma “metamorfose ambulante”. Não como quem muda de rumo o tempo todo, mas como quem entende que permanecer também exige movimento. Entre a sala de aula, o palco e a produção cultural, sua trajetória segue em curso, feita de insistência, de memória e de reinvenção. Como a “picada que ajudou a manter aberta”, sua história não se encerra nele: ela continua. Um rio que segue correndo, atravessando gerações, renovando suas águas e lembrando, a cada novo encontro, que a música ainda encontra quem esteja disposto a deixá-la passar.
Texto de Kati Duarte - LLama Laboratório Criativo (Dourados-MS)

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