top of page

Raique Moura, o menino que nunca parou de inventar mundos

Foto do escritor: LLama Lab
LLama Lab
30 de jul.
6 min de leitura

Atualizado: 31 de jul.


Muito antes de ser ator, ilustrador, fotógrafo, artesão ou produtor cultural, Raique Moura já construía mundos.

No quintal da casa dos avós, em Aparecida do Taboado, tecidos viravam cenários, lençóis estendidos no varal se transformavam em cortinas de teatro e qualquer pedaço de papel podia ganhar vida nas mãos de um grupo de crianças determinadas a inventar histórias. “Quando pequeno, também fazíamos micro caderninhos com cola de farinha de trigo e saíamos pelo bairro vendendo por 15 ou 25 centavos. Hoje eu olho para isso e acho engraçado, mas também muito bonito, porque já tinha ali uma mistura de criação, invenção, produção e desejo de compartilhar alguma coisa com o mundo”, ele recorda.

Entre brincadeiras com as primas, apresentações improvisadas para a família e passeios guiados pela imaginação de uma prima que se dizia bruxa, Raique cresceu cercado por uma matéria-prima que mais tarde reconheceria como essencial: a capacidade de imaginar.

Na época, ninguém chamava aquilo de arte, mas era. Criado em uma família grande, rodeado por tias, tios, primos e primas, ele encontrou nas relações afetivas um terreno fértil para desenvolver um olhar sensível sobre o mundo. Mesmo em uma realidade simples, nunca faltaram estímulos para criar, contar histórias e observar a beleza escondida nos detalhes.

"Antes mesmo de entender o que era arte, eu já estava sendo atravessado por ela", reflete o artista.

O dia em que tudo mudou


Há memórias que se tornam marcos invisíveis. Pequenos acontecimentos capazes de alterar completamente o rumo de uma vida.


Para Raique, esse momento aconteceu aos oito anos de idade. Aluno da terceira série do ensino fundamental, ele participou de uma excursão escolar para assistir ao espetáculo A Vila de Capimbeba, apresentado pelo Grupo Sou Que Sou, em Aparecida do Taboado.


Foi amor à primeira vista. As cores, os personagens, os cenários e a possibilidade de habitar outros universos através da arte produziram um impacto que permanece vivo décadas depois. "Assim que a peça começou, alguma coisa acendeu dentro de mim. Eu fiquei completamente atravessado por aquilo."


Ao voltar para casa, começou a reproduzir as cenas, repetir as falas e imitar os personagens. Sem saber exatamente como, descobriu naquele instante o que queria fazer da vida e, a partir dali, a arte deixou de ser apenas brincadeira e se tornou um horizonte.

Vieram os grupos de cantigas de roda, poesia e cordel. Depois, os projetos de teatro. Mais tarde, a entrada no Grupo Evolução, dirigido justamente por uma das artistas que integravam a peça que havia transformado sua infância. Foi uma experiência puxando a outra, como se o caminho estivesse sendo desenhado aos poucos.


Quando uma linguagem encontra outra


A arte entrou na vida de Raique pelo teatro, mas não demorou para encontrar novas formas de existir. O desenho sempre esteve presente. Desde criança, gostava de criar figuras femininas, influenciado pela convivência com as muitas mulheres da família. Já a fotografia surgiu na adolescência, quando ganhou sua primeira câmera digital.


Mas foi durante a graduação em Artes Cênicas, já em Dourados, que essas linguagens passaram a ocupar um espaço mais consciente em sua trajetória. Ali, compreendeu que não precisava escolher apenas uma forma de expressão: O teatro poderia dialogar com a fotografia, a fotografia poderia encontrar a ilustração, a ilustração, se transformar em escultura e a escultura poderia se tornar cinema. E todas elas poderiam coexistir.


Como o próprio artista reconhece, "Percebi que minha linguagem não estava em uma técnica específica, mas justamente nessa mistura de atravessamentos."


Hoje, seus trabalhos transitam entre diferentes linguagens, sempre carregando elementos que já se tornaram familiares para quem acompanha sua arte: corações fora do peito, olhos desalinhados, cores intensas, palavras espalhadas pela imagem e símbolos que parecem existir entre o sonho e a memória. Além de uma estética, é um universo em constante transformação.


A imaginação voando para as telas de cinema



É nessa transformação constante de linguagens que surgiu Voantes, o universo cinematográfico do artista. Composto de duas obras, o primeiro filme intitulado “Voante” foi idealizado em um momento pós-pandêmico, onde Raique sentiu a necessidade de dar forma real às figuras que habitavam sua imaginação. “Eu queria ver aqueles desenhos existindo de forma viva, tridimensional, quase como se eu pudesse entrar dentro deles. Foi uma sensação muito forte ver aquilo ganhando movimento, corpo, presença e respiração”, ele relembra.


Ainda nesse universo estreou, em 2025, “Voantes”, o segundo filme de Raique. Produzido também por Gil Esper e Romário Hilário, ele mistura fantasia, arte e experimentalismo, influenciado por artes distintas como o teatro visual, o design têxtil, a colagem e a ilustração. Voantes não se trata de um filme tradicional, mas é uma obra que ultrapassa fronteiras, que permite que o plástico e o performático se misturem ao audiovisual, transferindo para a tela elementos indispensáveis em sua obra, como textura, cor e sonho. 


“Voantes é isso: um filme que acredita na invenção como forma de resistência, na arte como forma de insistência. Ele é feito de chão, mas olha pro céu. E segue, mesmo que com asas invisíveis, tentando voar.” 


O valor do inesperado

Embora trabalhe com linguagens distintas, existe algo que atravessa toda a produção de Raique: o interesse por aquilo que escapa do controle. Na fotografia, prefere os gestos improvisados às poses rígidas. Na ilustração, muitas vezes deixa que as formas surjam durante o próprio processo. Nas esculturas, permite que os materiais proponham novos caminhos.


Para ele, criar tem menos relação com executar uma ideia pronta e mais com descobrir o que uma ideia pode se tornar, assim "o resultado quase sempre é inesperado", pontua.


Talvez por isso o processo ocupe um lugar tão importante em sua prática artística, já que é durante o fazer que surgem novas perguntas, novos sentidos e, frequentemente, novas obras. Criar, para Raique, parece ser também uma forma de escuta.


Quando a arte encontra as pessoas


Se o ateliê é o lugar da criação, o encontro com o público é o momento em que a obra ganha novas camadas. Raique fala com entusiasmo sobre a experiência de ver seu trabalho tocando outras pessoas. Para ele, cada um estabelece relações próprias com uma imagem, uma fotografia ou uma escultura.


E é justamente nessa troca que algo se transforma. "A obra deixa de estar só comigo e passa a existir também no olhar do outro", ele explica. É uma visão que ajuda a compreender sua produção não apenas como expressão individual, mas como convite ao diálogo. Em resumo, é como se a arte se completasse no encontro entre as pessoas.


Badauê: uma obra construída por muitas mãos

Essa ideia de encontro talvez encontre sua forma mais concreta na Feira Badauê. Criada após anos de envolvimento com diferentes feiras culturais de Dourados, a Badauê nasceu do desejo de reunir artistas, criadores e públicos distintos em um mesmo espaço e hoje já chegou em sua 4ª edição, reunindo centenas de expositores, entre artistas, artesãos e profissionais da culinária.


Mas reduzir a feira a um simples evento seria insuficiente. Para Raique, ela também é parte de sua obra, como ele mesmo pontua: "Sem sombra de dúvida, a Badauê também é uma das minhas obras. E talvez uma das mais importantes."


O nome não foi escolhido por acaso. Badauê significa celebração da alegria e essa celebração acontece através da convivência entre diferentes linguagens: música, teatro, artes visuais, gastronomia, moda, oficinas, exposições e ações sociais. Mais do que uma feira, o projeto se tornou um espaço de circulação artística e fortalecimento da economia criativa local.


Ela é um lugar onde artistas iniciantes encontram público, criadores compartilham experiências e a cidade experimenta novas formas de ocupar seus espaços. Para Raique, produzir cultura também é um ato de resistir, é afirmar que a arte e os artistas importam e que encontros têm o poder de transformar territórios.


Permanecer em movimento


Ao olhar para sua trajetória, Raique acredita que seu olhar continua sendo, em essência, o mesmo daquele menino que saiu encantado de uma peça de teatro na terceira série.

O que mudou foi o fazer. As técnicas se multiplicaram, as linguagens se expandiram, os caminhos ficaram mais complexos, mas a curiosidade, essa permanece e sempre se expande.


Hoje, ele sonha em realizar uma grande exposição individual que reúna ilustrações e esculturas em uma experiência imersiva. Também deseja viver um intercâmbio criativo pela América Latina, ampliando as trocas que tanto alimentam sua produção. Raique não é alguém em busca de um destino final, mas alguém interessado em continuar caminhando.


Quando perguntado sobre qual imagem representaria sua trajetória, a resposta veio carregada dos mesmos elementos que habitam suas obras: olhos espalhados pela superfície, peixes voando, portas suspensas, cores intensas e símbolos convivendo em um grande emaranhado de memórias. Talvez porque sua história também seja assim: Não uma linha reta, mas uma imagem em constante transformação.


O menino que um dia estendeu um lençol no quintal para apresentar histórias à família continua ali. A diferença é que, hoje, seus mundos já não cabem apenas no quintal. Eles ocupam galerias, palcos, feiras, fotografias, esculturas e encontros… e seguem convidando outras pessoas a atravessá-los.



Acompanhe o Raique no instagram através do perfil  https://www.instagram.com/raiquemoura/ 



Texto por Kati Duarte - LLama Laboratório Criativo


 
 
 

Comentários


Escrito por:

WhatsApp Image 2026-05-11 at 16.50.53.jpeg

Kati Duarte

Redatora e Colunista

  • Facebook
  • Twitter
  • LinkedIn
  • Instagram
bottom of page