Rock e rap no interior do MS: os 10 anos da Overdaines

Atualizado: 31 de jul.
Como a Overdaines transformou amizade, autoralidade e o interior de Mato Grosso do Sul em uma identidade musical própria.

Prestes a completar 10 anos de existência, a Banda Overdaines, composta por Miliano (Vocal), Igor Além (Vocal e guitarra), Rodrigo Dunha (Contrabaixo) e Juanito Borges (Bateria) prepara um retorno aos palcos. Para conhecer melhor essa história, conversamos com Igor e Miliano, fundadores e vozes à frente da banda.
Quando ambos falam sobre os dez anos da Overdaines, a primeira coisa que fazem é pontuar um pequeno desvio de narrativa. “Na verdade, a gente não está exatamente há uma década”, dizem. A banda passou por pausas, mudanças de formação, longos períodos de silêncio e dificuldades que qualquer grupo autoral do interior do Brasil conhece bem. Os dez anos são, nas palavras de Miliano, “uma boa desculpa para fazer uma festa”.
Mas talvez essa seja justamente a melhor definição da Overdaines: uma banda que nunca seguiu uma linha reta. A história começa muito antes de 2016, já que Igor e Miliano são amigos de infância, estudaram juntos, cresceram ouvindo Charlie Brown Jr. e Linkin Park, e acabaram se afastando durante a adolescência. O reencontro aconteceu quando ambos atravessavam um momento em que fazer música parecia uma necessidade.
Vindo de outros projetos, Igor não conseguia desenvolver o lado autoral que ele buscava e Miliano havia encerrado outra banda que carregava referências de rock, hip hop e música urbana. Quando voltaram a conversar, descobriram que ainda falavam a mesma língua.
“Desde o primeiro ensaio a gente já focou no autoral”, lembra Miliano. Essa claramente é a primeira característica essencial da Overdaines: uma banda nunca nasceu para ocupar uma lacuna de mercado, nasceu porque seus integrantes precisavam criar.
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Ao definir o estilo musical, é tentador tentar classificar a Overdaines como uma banda de rock com rap, ou de rap com rock. Os próprios vocalistas se divertem com essa tentativa.
Igor diz que a mistura aconteceu de forma natural: ele trouxe a formação do rock; Miliano já era um MC da cena de hip hop de Dourados. Já o rapper, responde de outro jeito: foi consciente, mas inevitável. “Eu não sei cantar, só sei rimar.”
As duas respostas parecem diferentes, mas dizem a mesma coisa. Hoje, 10 anos depois, fica claro que a Overdaines não foi construída a partir de algo que já existia, ela foi construída a partir das limitações, das influências e da convivência entre pessoas que escutavam coisas diferentes e descobriram que essas diferenças podiam virar uma linguagem própria.
Por isso, as músicas da banda parecem habitar um território próprio, onde riffs pesados convivem com rimas, melodias melancólicas dividem espaço com a cadência do rap, e nenhuma dessas partes parece estar ali por acaso.
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Outro aspecto muito forte na identidade da Overdaines, é o modo como a banda compõe, pois não existe um compositor central, um método rígido ou uma fórmula. Geralmente alguém chega com um riff, um texto, uma ideia ou um improviso, e a música vai sendo construída coletivamente.
Igor descreve o processo como “uma salada maluca” e Miliano completa: “bem rudimentar, sem muita cerimônia e bastante instintivo”. Pode até ser por isso eles tenham dificuldade de separar as letras da vida. As canções nascem de vivências, conversas, filmes, quadrinhos, política, piadas e experiências compartilhadas.
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Se existe uma resposta que sintetiza a identidade da Overdaines, ela veio quando a conversa chegou a Dourados.
Igor diz que a banda representa uma juventude eclética, multicultural, que ouve vários ritmos, bebe cerveja na rua, vive no interior do interior do Brasil e, ao mesmo tempo, está conectada ao mundo, ousando definir a si mesmos como “Caipiras urbanos”. Já Miliano usa outra imagem, a de um “Cyberpunk bucólico e desértico”. As duas expressões parecem improváveis, mas descrevem exatamente o mesmo cenário: uma cidade onde a cultura urbana encontra o interior, onde a tecnologia convive com o vazio, onde o rap e o rock dialogam com ruas quentes, terrenos baldios, festas independentes e a sensação permanente de estar longe dos grandes centros.
Entre letras e representatividade, essa certamente é a contribuição mais original da Overdaines, que em vez de repetir a imagem tradicional do Mato Grosso do Sul como um lugar de natureza exuberante, a banda cria uma estética para outra experiência: a de quem cresceu entre o asfalto, a internet, o hip hop, o rock, o calor das ruas e a falta de perspectiva.
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Quando falam sobre a cena musical de Dourados, as respostas são duras, mas não surpreendentes. Assim como muitos outros artistas da região, repetem a visão de um cenário pouco animador, onde o incentivo é quase zero, há pouco espaço para bandas autorais e consequentemente ouco público interessado.
Mas há uma frase do Igor que muda o eixo da conversa. “Se não é a gente fazer as nossas festas para tocar, dificilmente conseguimos”, esse posicionamento revela algo importante: a Overdaines não sobreviveu esperando que as condições ideais aparecessem, mas criando suas próprias condições. Isso ajuda a explicar por que, mesmo depois de tantas pausas, a banda continua existindo.
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No fim, há uma pergunta simples: depois de dez anos, o que ainda faz vocês quererem subir no palco juntos?
A resposta de Igor pode ser considerada a mais bonita de toda a conversa: “A mesma ânsia de estar fazendo arte, se expressando e mostrando seu trampo.” Ele fala de um buraco que existe dentro de quem cria, onde a arte é uma das poucas formas de preenchê-lo, uma resposta que de certa forma dá significado a toda a trajetória da Overdaines.
A banda pode não ter vivido uma década contínua, mas nunca deixou de existir como uma necessidade. Talvez seja por isso que a festa de dez anos faça tanto sentido, não como a comemoração de uma carreira linear, e sim como a celebração de uma insistência que nasceu de dois amigos que queriam compor músicas e, dez anos depois, continua sendo exatamente isso. E é justamente esse impulso de criar e se expressar através da música que faz a Overdaines atravessar o tempo.
Serviço
O evento de comemoração aos 10 anos da Overdaines acontece no dia 26/09, no Vibes Bar em Dourados e terá como ato de abertura o show da Banda Fissura. Os ingressos podem ser adquiridos através do link:
Texto por Kati Duarte - LLama Lab





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